Etanol pode ser o novo combustível para navios? Testes no Brasil.

O etanol, amplamente utilizado nos automóveis brasileiros, começa a emergir como uma alternativa promissora no mercado de combustíveis marítimos. Este avanço foi exemplificado em julho, quando o Porto de Santos (SP) realizou o primeiro abastecimento de um porta-contêineres transoceânico com etanol, validando uma nova rota para a descarbonização da navegação de longo curso.
O CMA CGM Iron, com capacidade para 13 mil TEUs, recebeu 500 toneladas de etanol, o que equivale a aproximadamente 635 mil litros, durante sua parada no Tecon Santos. Com um motor tricombustível, o navio está preparado para operar com etanol, metanol e combustível marítimo convencional, destacando a versatilidade necessária para integrar combustíveis mais limpos na frota atual.
Essa operação foi resultado da colaboração entre várias entidades, incluindo a Copersucar, que forneceu o etanol; AGEO Terminais, responsável pelo armazenamento; e Bunker One, que fez o transporte do combustível até o navio. A integração dessa cadeia de produção, armazenamento e abastecimento é fundamental para garantir que o etanol possa se firmar como uma opção viável na navegação comercial, algo que ainda requer aprimoramento de infraestrutura.
Com a crescente demanda por combustíveis mais sustentáveis, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) aponta que é essencial estabelecer condições para que iniciativas inovadoras, como esta, ganhem escala. A Ministra Substituta, Thairyne Oliveira, enfatizou a necessidade de criar uma infraestrutura robusta de abastecimento, além de segurança e regulamentação apropriadas.
Brasil em Posição Favorável
A produção de etanol no Brasil, que atingiu 35,9 bilhões de litros em 2025, coloca o país em uma posição vantajosa nesse contexto. A capacidade já existente na indústria brasileira oferece uma base sólida em comparação com outros combustíveis de baixo carbono que ainda precisam desenvolver sua capacidade produtiva. Contudo, a transição do etanol para o abastecimento marítimo enfrenta desafios relacionados à infraestrutura necessária para o bunkering e a certificação do combustível.
O recente abastecimento em Santos levou aproximadamente dois anos de preparação, evidenciando a complexidade dessa nova cadeia de suprimentos. A jornada do etanol, desde a produção até sua aplicação no navio, requer planejamento cuidadoso, assim como instalações adequadas para armazenamento e transporte.
Novas Oportunidades para a Frota
Os navios estão começando a incorporar o etanol, especialmente com a nova geração de embarcações que utilizam sistemas de propulsão versáteis. O CMA CGM Iron, entregue em 2025, é o pioneiro de uma série de 12 embarcações que adotam motores tricombustíveis, mostrando que a indústria está se movendo em direção a combustíveis de baixo carbono. Entretanto, essa mudança demanda que novos navios sejam equipados adequadamente, o que ainda não ocorre em larga escala na frota atual.
Além disso, o avanço em direção à descarbonização marítima reflete um movimento global. As metas estabelecidas pela Organização Marítima Internacional (IMO) visam reduzir as emissões da navegação, desafiando o Brasil a se tornar um líder na utilização de biocombustíveis no comércio internacional.
O Papel dos Portos na Transição Energética
As mudanças no combustível também ampliam o papel dos portos, que podem se tornar centros de abastecimento para navios que utilizam combustíveis de baixo carbono. Com o abastecimento do CMA CGM Iron, Santos estabelece um precedente, embora a continuidade dessa iniciativa dependa da regularidade do abastecimento e da infraestrutura necessária para operações seguras e em escala.
Cidades portuárias, como Recife e Suape, podem também se beneficiar da produção regional de biocombustíveis, posicionando-se na discussão sobre novas cadeias de abastecimento. A transição energética, portanto, não impacta apenas os combustíveis marítimos, mas também abre oportunidades significativas para o setor de transporte como um todo.
Considerando esses avanços, a possibilidade de utilizar parte do etanol, que já abastece veículos terrestres, nos navios que conectam o Brasil ao comércio global é um passo importante. Essa mudança não só contribuirá para a descarbonização, mas também poderá resultar em uma mobilidade mais eficiente e alinhada com os objetivos sustentáveis do Brasil e do mundo.
Fonte: transportemoderno






