Faltando dois meses, Move Brasil enfrenta desafio na renovação da frota dos autônomos.

A Dois Meses do Fim, Move Brasil Esbarra no Desafio de Renovar a Frota dos Autônomos

Ainda restam cerca de dois meses para o encerramento da vigência da Medida Provisória (MPV 1.362/2026) que criou o programa Move Brasil 2. O diagnóstico sobre a dificuldade de alcançar os caminhoneiros autônomos reflete uma realidade preocupante. Apesar de haver recursos disponíveis e demanda reprimida, o acesso ao financiamento permanece restrito, principalmente devido ao perfil econômico dos transportadores independentes.

A MP foi publicada em 26 de maio de 2026, com um prazo inicial de 60 dias, terminando em 24 de julho. Contudo, a prorrogação automática de mais 60 dias faz com que a vigência se encerre em 22 de setembro de 2026, a menos que seja aprovada pelo Congresso antes desse prazo.

O Move Brasil foi criado para estimular a renovação de caminhões, ônibus e implementos rodoviários, reunindo R$ 31,2 bilhões em recursos nas duas etapas do programa. Na primeira fase, foram disponibilizados R$ 10 bilhões, dos quais R$ 1 bilhão foi reservado para caminhoneiros autônomos e cooperados. Na segunda fase, o governo ampliou esse valor para R$ 21,2 bilhões, destinando R$ 2 bilhões especificamente a esses transportadores.

Considerando um valor médio estimado de R$ 550 mil por caminhão, os recursos alocados em ambas as fases poderiam financiar aproximadamente 5,4 mil veículos para autônomos. Entretanto, a efetividade desse crédito depende da capacidade de transformar recursos disponíveis em contratos de financiamento concretizados, um desafio que continua a ser uma barreira significativa.

O paradoxo da situação está no fato de que os caminhoneiros autônomos, que operam com veículos mais antigos – com uma média de 24 anos de idade – são os mesmos que enfrentam mais dificuldades para obter créditos. Até julho de 2026, apenas R$ 139,8 milhões haviam sido aprovados em financiamento para 315 autônomos, enquanto permaneciam cerca de R$ 1,86 bilhão teoricamente disponíveis. Essa discrepância ilustra uma corrida onde as transportadoras organizadas, muitas vezes, conseguem acessar os recursos de forma muito mais rápida que os autônomos.

A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) aponta que a dificuldade de acesso ao crédito, que já existia em programas anteriores como o Modercarga e o Procaminhoneiro, é acentuada por uma falta de documentação que fortaleça o histórico financeiro dos motoristas. Antigos métodos de pagamento de frete, como a Carteira Frete, não geraram registros bancários formais. Assim, muitos transportadores encontram dificuldade em comprovar sua capacidade de pagamento, inviabilizando o acesso ao financiamento.

Além dessa barreira, o aumento no custo dos caminhões torna difícil para os autônomos assumir novas dívidas, mesmo que os veículos antigos já estejam quitados. A pressão de custos com combustível, manutenção e pedágios limita ainda mais a capacidade de investimento, essenciais para a mobilidade e modernização da frota.

Entretanto, o Move Brasil apresenta avanços em relação a programas anteriores, especialmente com a criação do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) que promove maior formalização e registro das operações. Essa mudança permite aos caminhoneiros comprovar melhor sua renda e facilita o acesso ao crédito.

Há um claro interesse por parte dos caminhoneiros em renovar a frota, como evidenciam as simulações de financiamento realizadas por plataformas que visam simplificar o processo. Porém, a diferença entre interesse e a concretização de contratos permanece ampla.

É essencial destacar que o problema do financiamento vai além da simples disponibilidade de recursos. A real sustentabilidade das operações de transporte está atrelada à rentabilidade do setor, que opera, há muitos anos, com margens reduzidas e dificuldades em repassar custos. Mesmo com programas de renovação em andamento, o verdadeiro progresso depende de um cenário financeiro que permita aos motoristas autônomos gerarem receita suficiente para arcar com as novas dívidas.

Por fim, a experiência de programas passados e o atual Move Brasil ressaltam a necessidade de uma abordagem mais estruturada e contínua para a renovação da frota. Um programa de longo prazo, que transcenda a atual iniciativa, poderia fomentar não apenas a melhoria dos veículos em circulação, mas também a regularização financeira dos motoristas autônomos, essencial para um transporte mais eficiente e sustentável no Brasil.

Fonte: transportemoderno

Equipe Redação

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