Inadimplência no transporte pode ultrapassar 5%; saiba mais.

A taxa de inadimplência da carteira de financiamento de caminhões deve ultrapassar 5% nos próximos trimestres, aproximando-se do pico registrado durante a recessão de 2015 e 2016, quando o indicador chegou a 5,8%. O alerta é de Francisco Maqueda, diretor de risco do Banco Traton, braço financeiro da Volkswagen Caminhões e Ônibus. “Estamos voltando para um período de estresse semelhante ao de 2016”, afirmou Maqueda. “Hoje a taxa está em 4,7%, segundo os últimos dados do Banco Central, mas com certeza vai passar de 5%.”
Segundo o executivo, o mercado de crédito para veículos pesados é predominantemente corporativo. Cerca de 95% da carteira de financiamento de caminhões e ônibus é formada por pessoas jurídicas, segmento altamente sensível ao comportamento da taxa Selic. “Quando você tem um aumento da Selic, geralmente entre seis e 12 meses depois aparece o reflexo na inadimplência. E o contrário também acontece”, disse.
Na avaliação de Maqueda, o principal problema atual não é apenas o patamar nominal da Selic, mas o longo período em que os juros permanecem elevados. Desde 2022, a taxa básica segue em níveis considerados restritivos, ampliando o custo financeiro das empresas de transporte.
“O Brasil sempre teve juros altos. A diferença agora é o juro real muito elevado por um período longo”, destacou. “As empresas conseguem administrar um ou dois anos de pressão financeira, mas a Selic alta já dura quatro anos. As despesas financeiras foram crescendo e muitas transportadoras não conseguiram recompor margem.”
Segundo ele, empresas médias do setor chegam a captar recursos com taxas superiores a 20% ao ano, muito acima da Selic oficial. Ao mesmo tempo, enfrentam dificuldade para repassar custos aos embarcadores e contratantes de frete. “O transportador não consegue aumentar imediatamente o frete na mesma proporção da inflação ou do custo financeiro”, disse.
Outro fator que pressiona o caixa das empresas é o alongamento dos prazos de pagamento por parte dos clientes. “No passado, apenas grandes companhias trabalhavam com prazos muito longos. Agora isso virou prática também entre empresas médias e pequenas”, afirmou Maqueda. “O transportador fica no fim da cadeia, tendo que absorver aumento de diesel, juros e outros custos.”
Recuperações judiciais avançam
O aumento da inadimplência ocorre em paralelo à expansão dos pedidos de recuperação judicial no transporte rodoviário de cargas, movimento observado desde 2023 e intensificado neste ano. Segundo Maqueda, o crescimento das RJs está diretamente ligado ao endividamento acumulado das empresas em um cenário de crédito caro e dificuldade de geração de caixa. “As empresas estão cada vez mais dependentes de capital de giro. Só que esse capital ficou muito caro”, afirmou.
O executivo disse que já há uma piora gradual nos indicadores de risco do setor e já observa maior seletividade na concessão de crédito. O avanço das dificuldades financeiras no transporte ocorre em meio a uma deterioração mais ampla dos indicadores corporativos no país.
Dados da Serasa Experian mostram que os pedidos de recuperação judicial no Brasil atingiram 977 processos em 2025, alta de 5,5% sobre o ano anterior e o maior volume desde 2016. Considerando o número de empresas envolvidas, o total chegou a 2.466 CNPJs, recorde da série histórica. Embora o levantamento não tenha um recorte específico para transportadoras e empresas de ônibus, é evidente que o setor de transporte está entre os mais sensíveis ao crédito caro, ao aumento dos custos financeiros e à desaceleração da atividade econômica.
O cenário de estresse financeiro também aparece nos dados gerais de inadimplência empresarial. Segundo a Serasa Experian, o Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, maior nível da série histórica, somando R$ 213 bilhões em dívidas negativadas. O setor de serviços — categoria na qual boa parte das transportadoras e operadoras de ônibus está inserida — concentrou mais da metade das empresas negativadas do país.
Locação ganha espaço como alternativa
Com maior restrição no financiamento tradicional, parte das transportadoras passou a buscar alternativas como locação de caminhões, ônibus e estruturas híbridas de financiamento. “Muitas empresas já estão alavancadas e encontram dificuldade para conseguir novas linhas bancárias”, afirmou Maqueda. “A locação acaba funcionando como um complemento.”
Embora as locadoras também realizem análise de crédito, o modelo tende a ser mais flexível do que o financiamento convencional. A tendência pode favorecer empresas de locação de veículos pesados, um segmento que vem crescendo nos últimos anos e já atrai montadoras, bancos e gestoras financeiras.
Os impactos dessa situação se estendem além das finanças das transportadoras; afetam diretamente a mobilidade geral no país. Crescentes índices de inadimplência podem resultar em uma redução na oferta de serviços de transporte, prejudicando a eficácia logística e o acesso a bens e produtos. Isso pode gerar um efeito cascata na economia, afetando motoristas e usuários do transporte de diversas formas. Com menos recursos disponíveis, as empresas podem se ver obrigadas a cortar custos, o que frequentemente resulta em menores investimentos em manutenção e inovação. Portanto, a situação financeira do setor de transporte é crucial para garantir não apenas a sustentabilidade das empresas, mas também a fluidez e a qualidade da mobilidade urbana e rural.
Fonte: transportemoderno






