Custo operacional não é o principal desafio do transporte; é a falta de previsibilidade.

Custo operacional não é o maior problema do transporte. Falta de previsibilidade é.
Gustavo Araújo
Quando o setor de transporte enfrenta crises, o discurso costuma ser unânime: “O custo subiu”, “A folha está pesada”, “O custo financeiro matou a margem”. Essa repetição quase se torna um mantra, e embora esses fatores sejam relevantes, há um aspecto frequentemente negligenciado: a verdadeira origem de grande parte da perda de margem está no interior da operação.
As empresas do setor tendem a atribuir suas dificuldades a fatores externos, evitando discutir os problemas que estão sob seu controle. O vilão real não é a flutuação de mercado, mas sim a improdutividade invisível que frequentemente não é medida de maneira adequada. Situações como uma frota que roda vazia, horas perdidas em pátios e desvios percebidos apenas após atrasos são apenas algumas das ineficiências que consomem recursos sem serem chamadas à atenção.
Essas ineficiências não aparecem claramente no Demonstrativo de Resultados. Elas estão diluídas no custo por viagem ou no quilômetro rodado improdutivo, levando a uma evaporação progressiva da margem. O que realmente importa não é apenas o preço dos insumos, mas sim o quanto se desperdiça deles devido à falta de gestão eficiente. Curiosamente, muitas empresas já possuem dados suficientes para evitar esses desperdícios, mas os dados estão dispersos entre diferentes sistemas, dificultando a formação de uma visão consolidada e a geração de inteligência operacional.
Essa falta de organização desencadeia um ciclo vicioso: uma gestão reativa leva a uma frota menos produtiva, o que aumenta o custo por ativo e, consequentemente, pressiona ainda mais as margens. Isso resulta em decisões apressadas, que por sua vez geram ainda mais ineficiência, restabelecendo o ciclo de reclamações sobre o custo operacional.
Adaptar a forma como a informação circula na operação é crucial para mudar esse cenário. Ao invés de ter dados fragmentados, é necessário construir uma visão integrada. Com informações centralizadas, as empresas podem antecipar riscos em vez de reagir a problemas já estabelecidos.
Com um sistema de monitoramento eficiente, todos os veículos podem ser acompanhados em tempo real, transformando estimativas de tempo de trânsito em dados precisos sobre a disponibilidade operacional. Isso não apenas melhora a visibilidade, mas também a capacidade de atuar preventivamente, evitando que pequenos problemas se tornem grandes crises.
Esse tipo de gestão transforma a dinâmica com o cliente. Em vez de justificar atrasos, as empresas podem comunicar proativamente os riscos de atraso e as ações que estão tomando para mitigá-los. Essa transformação sutil na comunicação pode impactar significativamente o nível de serviço oferecido.
A melhoria da previsibilidade melhora a malha logística. Menos deslocamentos vazios resultam em maior produtividade por ativo, e, assim, os custos unitários começam a cair, tudo isso sem a necessidade de engenharias financeiras complexas, mas sim através de eficiência operacional estruturada.
O próximo passo é incorporar inteligência artificial, que cruzará dados de diversos sistemas para otimizar ainda mais o planejamento, criando um verdadeiro "match" entre veículos, clientes e rotas, levando em conta menores deslocamentos vazios e otimizando a jornada do motorista. Esse avanço não é um projeto distante; é uma aplicação prática da eficiência operacional.
Portanto, o setor deve mudar seu foco. Em vez de se concentrar apenas nas flutuações de custo, a pergunta crucial deve ser: "Quanto estou perdendo por falta de previsibilidade?" A margem não é fruto de defesas, mas de controle e de decisões informadas.
Quando as empresas aprendem a operar à frente do veículo, não dependem da sorte para fechar o mês no azul. Essa mudança de mentalidade pode transformar não apenas as operações internas, mas toda a mobilidade, contribuindo para um sistema de transporte mais eficiente e confiável.
Fonte: Carta Logística






