Setenta por cento de moradores de comunidades desistiram das compras online.

O avanço do consumo digital nas periferias brasileiras está criando uma nova fronteira para a logística urbana. Pesquisas do Instituto Data Favela mostram que seis em cada dez moradores de comunidades já realizam compras online, indicando que o desafio deixou de ser o acesso ao ambiente digital e passou a ser o acesso à entrega. Essa mudança reflete a evolução dos hábitos de consumo, onde a conveniência e a praticidade se tornam prioridade.
Com cerca de 17 milhões de moradores e um mercado que movimenta aproximadamente R$ 300 bilhões por ano — valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de diversos países da América Latina — favelas e comunidades passaram a exigir soluções específicas para um dos principais gargalos do comércio eletrônico: a entrega da última milha. Essa demanda crescente está transformando o cenário logístico e impactando diretamente a mobilidade urbana, uma vez que maiores investimentos e inovações na entrega podem contribuir para uma cidade mais inclusiva.
Levantamento do Instituto Locomotiva revela que sete em cada dez moradores desses territórios já desistiram de uma compra online devido a dificuldades relacionadas à entrega, como restrições de cobertura, prazos elevados ou impossibilidade de atendimento em determinados endereços. Essa estatística destaca um entrave crucial para a expansão do comércio eletrônico no Brasil, sublinhando a necessidade de soluções logísticas eficazes para atender áreas que historicamente foram negligenciadas.
Quando o CEP deixa de funcionar
Apesar da relevância econômica, a distribuição nessas regiões ainda enfrenta obstáculos operacionais significativos. O endereçamento incompleto, a baixa precisão de CEPs e as barreiras de acesso resultam em custos logísticos superiores aos observados em áreas urbanas convencionais. Isso não só eleva os gastos, como também compromete a eficiência na mobilidade urbana, impactando toda a cadeia de abastecimento.
Para superar essas limitações, operadores especializados vêm adotando tecnologias de georreferenciamento, endereçamento digital e inteligência territorial, criando uma infraestrutura logística complementar que se adapta à realidade local. Ao invés de depender exclusivamente dos sistemas tradicionais de endereçamento, essas operações utilizam coordenadas geográficas e conhecimento do território, permitindo uma resposta mais ágil às necessidades da comunidade.
Outro modelo inovador que vem ganhando espaço é a utilização de entregadores residentes nas comunidades, que estão familiarizados com as diferentes realidades locais e podem navegar por suas vielas e acessos com maior facilidade. Essa abordagem não apenas melhora a eficiência das entregas, mas também gera emprego e renda dentro da própria comunidade, fortalecendo a economia local.
Nova infraestrutura logística
Atenta a esse potencial de mercado, a logtech carioca naPorta abriu sua terceira rodada de investimentos para acelerar a expansão de suas operações. A empresa é especializada na chamada “logística periférica”, conectando marketplaces e varejistas a consumidores em favelas e regiões com restrições de entrega. Nos últimos quatro anos, a naPorta aumentou sua operação em mais de 50 vezes, demonstrando que a demanda por soluções de entrega eficazes está em ascensão.
O modelo da naPorta utiliza uma plataforma de Logistics as a Service (LaaS), que integra aplicativos e ferramentas de gestão, permitindo que mais de 300 entregadores atuem diariamente. Essa estrutura não só facilita as entregas, mas também contribui para o desenvolvimento de uma mobilidade mais eficiente, beneficiando tanto os consumidores quanto os comerciantes.
A demanda crescente desses consumidores tem incentivado a inovação e o aparecimento de soluções específicas para a logística periférica, como a implementação de torres de controle e sistemas de acompanhamento em tempo real. Esse movimento representa uma mudança crucial na forma como a logística urbana se desenvolve, permitindo que regiões antes consideradas de difícil acesso se tornem mercados viáveis.
A próxima fronteira da logística urbana
Embora ainda representem uma parcela relativamente pequena do mercado total de encomendas, os operadores especializados começam a ocupar uma posição estratégica, transformando áreas com pouca cobertura de entrega em novas oportunidades para o comércio eletrônico. Se, na última década, o objetivo foi democratizar os meios de pagamento, o próximo passo é garantir que a entrega também seja acessível a todos. Nesse cenário, a capacidade de realizar entregas eficazes em locais onde o CEP não chega poderá se tornar uma vantagem competitiva essencial para a logística urbana no futuro.
Fonte: Transportemoderno






