{"id":12777,"date":"2026-07-28T13:45:34","date_gmt":"2026-07-28T16:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/motorista.com.br\/noticias\/2026\/07\/28\/frete-se-tornou-commodity-mas-os-custos-permanecem\/"},"modified":"2026-07-28T13:45:34","modified_gmt":"2026-07-28T16:45:34","slug":"frete-se-tornou-commodity-mas-os-custos-permanecem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/motorista.com.br\/noticias\/2026\/07\/28\/frete-se-tornou-commodity-mas-os-custos-permanecem\/","title":{"rendered":"Frete se tornou commodity, mas os custos permanecem."},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<h5><strong>RENNAN CARSTEN*<\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong><em>Como a expans\u00e3o da oferta de caminh\u00f5es, a press\u00e3o comercial e a escalada dos custos comprimiram a rentabilidade do transporte rodovi\u00e1rio brasileiro.<\/em><\/strong><\/h5>\n<table width=\"623\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"6\"\/>\n<td width=\"617\">\n<h4><strong>S\u00cdNTESE<\/strong><\/h4>\n<p><em>Entre 2016 e 2026, caminh\u00f5es, pneus, diesel e alimenta\u00e7\u00e3o subiram muito acima da capacidade de recomposi\u00e7\u00e3o estrutural do frete. O setor movimentou mais capital e assumiu mais risco, sem necessariamente capturar mais retorno.<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h3><strong>Resumo executivo<\/strong><\/h3>\n<p>O transporte rodovi\u00e1rio de cargas enfrenta um dilema complicado. Embora o frete seja tratado como uma commodity, pressionado pela oferta crescente de ve\u00edculos e a intensa competi\u00e7\u00e3o, a estrutura necess\u00e1ria para prover este servi\u00e7o ficou significativamente mais cara, complexa e intensiva em capital.<\/p>\n<p>Entre 2016 e 2026, o pre\u00e7o de um cavalo mec\u00e2nico extrapesado aumentou cerca de 213%. Os custos relacionados a pneus e diesel dobraram. A cesta b\u00e1sica em S\u00e3o Paulo subiu aproximadamente 120%, enquanto o sal\u00e1rio m\u00ednimo aumentou 84%. Mesmo assim, a Selic, que atingiu 2% ao ano em 2020, subiu para 14,25% em junho de 2026.<\/p>\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o dos custos n\u00e3o se traduz automaticamente em reajustes no frete. Quando o n\u00famero de caminh\u00f5es dispon\u00edveis cresce mais rapidamente que a demanda, a rivalidade entre os transportadores se intensifica. Isso concede mais poder de negocia\u00e7\u00e3o aos embarcadores, pressionando o pre\u00e7o e diminuindo a rentabilidade do transportador.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica explica por que o frete n\u00e3o acompanha a alta dos custos na mesma propor\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de infla\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma falha estrutural na precifica\u00e7\u00e3o dentro de um mercado fragmentado, caracterizado pela baixa diferencia\u00e7\u00e3o percebida e pelo excesso de capacidade.<\/p>\n<h2><strong>1. Quando o frete se transforma em commodity<\/strong><\/h2>\n<p>Algo se torna uma commodity quando o mercado o v\u00ea como facilmente substitu\u00edvel. No transporte, isso acontece quando a contrata\u00e7\u00e3o se resume a achar um caminh\u00e3o dispon\u00edvel para carregar uma carga de um ponto a outro.<\/p>\n<p>Se os transportadores s\u00e3o vistos como equivalentes, outros aspectos importantes, como seguran\u00e7a, gest\u00e3o de risco, e n\u00edvel de servi\u00e7o s\u00e3o ignorados. O pre\u00e7o se torna a \u00fanica vari\u00e1vel relevante, aumentando a press\u00e3o competitiva.<\/p>\n<p>Esse ambiente competitivo for\u00e7a as empresas a reduzir pre\u00e7os para ocupar suas frotas, gerando caixa ou evitando a ociosidade. Por\u00e9m, essa press\u00e3o pode resultar em grandes desvios em rela\u00e7\u00e3o aos custos significativos, amea\u00e7ando a viabilidade a longo prazo do setor.<\/p>\n<h3><strong><em>O transporte tende a ser commodity. A gest\u00e3o nunca ser\u00e1.<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>A gest\u00e3o torna poss\u00edvel a distin\u00e7\u00e3o entre o pre\u00e7o nominal e o resultado real. Duas empresas podem faturar o mesmo frete e, ainda assim, apresentar margens completamente diferentes, dependendo de fatores como produtividade e efici\u00eancia financeira.<\/p>\n<h2><strong>2. O mecanismo econ\u00f4mico da compress\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o do frete depende n\u00e3o s\u00f3 dos custos envolvidos, mas tamb\u00e9m da intera\u00e7\u00e3o entre oferta e demanda. A maior oferta de caminh\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 demanda resulta em uma for\u00e7a de negocia\u00e7\u00e3o reduzida para os transportadores.<\/p>\n<table width=\"623\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"6\"\/>\n<td width=\"617\">\n<h4><strong>TESE CENTRAL<\/strong><\/h4>\n<p><em>Quanto maior a oferta de caminh\u00f5es para uma mesma quantidade de cargas, menor tende a ser o poder de precifica\u00e7\u00e3o do transportador, resultando em queda ou estagna\u00e7\u00e3o dos fretes, enquanto os custos de opera\u00e7\u00e3o continuam a aumentar.<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O excesso de oferta pode se manifestar em diversas formas, sendo muitas vezes influenciado por fatores como crescimento desmedido de frotas, queda na produ\u00e7\u00e3o industrial, ou concentra\u00e7\u00e3o de capacidade em determinados corredores.<\/p>\n<p>A inevit\u00e1vel ociosidade torna-se um custo significativo, levando muitos transportadores a aceitar fretes abaixo da margem ideal para manter seus ve\u00edculos em movimento. Essa estrat\u00e9gia, embora resolva problemas imediatos de caixa, perpetua a baixa refer\u00eancia de pre\u00e7o e prejudica a capacidade de reinvestimento no longo prazo.<\/p>\n<h2><strong>3. Dez anos de escalada dos custos<\/strong><\/h2>\n<p>A fotografia atual do setor exige uma an\u00e1lise detalhada dos componentes econ\u00f4micos do transporte, que refletem um aumento significativo nos custos de opera\u00e7\u00e3o. O aumento nos pre\u00e7os dos caminh\u00f5es e pneus impacta diretamente na manuten\u00e7\u00e3o e disponibilidade, enquanto pre\u00e7o do diesel, por sua vez, influencia a margem de lucro.<\/p>\n<table width=\"620\">\n<thead>\n<tr>\n<td width=\"60\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ano<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"103\"><strong>Cavalo mec\u00e2nico<\/strong><\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"93\"><strong>Diesel\/L<\/strong><\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"93\"><strong>Pneu premium<\/strong><\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"97\"><strong>Sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/strong><\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"70\"><strong>Selic<\/strong><\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"103\"><strong>Cesta SP<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"60\">\n<p style=\"text-align: center;\">2023<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"103\">R$ 950 mil<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"93\">R$ 6,06<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"93\">R$ 3.000<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"97\">R$ 1.320<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"70\">11,75%<\/td>\n<td width=\"103\">\n<p style=\"text-align: center;\">~ R$ 770<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Esse aumento expressivo indica que o setor exige mais capital para gerar a mesma unidade f\u00edsica de servi\u00e7o, ou seja, transportar uma carga de um ponto a outro. O desafio central est\u00e1 em como reconciliar esses custos crescentes com a necessidade de manter a efici\u00eancia operacional.<\/p>\n<h2><strong>4. Por que o frete n\u00e3o acompanhou os custos<\/strong><\/h2>\n<p>V\u00e1rios fatores contribuem para essa disparidade:<\/p>\n<p><strong>Excesso de capacidade.<\/strong> Mais caminh\u00f5es competindo pela mesma quantidade de cargas reduzem a capacidade de negocia\u00e7\u00e3o dos transportadores.<\/p>\n<p><strong>Fragmenta\u00e7\u00e3o do setor.<\/strong> Com milhares de operadores tomando decis\u00f5es individuais, muitos aceitam pre\u00e7os que n\u00e3o refletem o custo total da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Baixa diferencia\u00e7\u00e3o percebida.<\/strong> Quando aspectos como seguran\u00e7a e qualidade de servi\u00e7o n\u00e3o s\u00e3o considerados, a concorr\u00eancia se resume \u00e0 busca pelo menor pre\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Reajustes incompletos.<\/strong> Enquanto contratos podem ajustar pre\u00e7os de combust\u00edveis ou infla\u00e7\u00e3o, eles frequentemente falham em captar de forma integral a deprecia\u00e7\u00e3o, juros, manuten\u00e7\u00e3o e seguros.<\/p>\n<h2><strong>5. Frete praticado n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de frete sustent\u00e1vel<\/strong><\/h2>\n<p>O pre\u00e7o que o mercado aceita pagar em um determinado momento n\u00e3o necessariamente reflete a sustentabilidade econ\u00f4mica da opera\u00e7\u00e3o de transporte. A indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao custo real pode levar a consequ\u00eancias desastrosas para todo o setor, resultando em servi\u00e7os de qualidade inferior e inseguran\u00e7a no transporte.<\/p>\n<h2><strong>6. O novo crit\u00e9rio de competitividade<\/strong><\/h2>\n<p>O futuro do transporte exige mais do que apenas luta por pre\u00e7os. A manuten\u00e7\u00e3o da competitividade deve vir atrav\u00e9s da efici\u00eancia, inova\u00e7\u00e3o e da implementa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de gest\u00e3o de custos relevantes.<br \/>Para os motoristas e para a mobilidade geral, isso representa um caminho em dire\u00e7\u00e3o a um setor mais sustent\u00e1vel, com transporte mais seguro e eficiente.<\/p>\n<table width=\"623\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"6\"\/>\n<td width=\"617\"><strong>CONSEQU\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p><em>O mercado consegue manter o caminh\u00e3o rodando sem garantir que o capital investido esteja sendo remunerado. Volume n\u00e3o corrige pre\u00e7o ruim, muitas vezes apenas acelera a destrui\u00e7\u00e3o de valor.<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre um frete barato e um custo total baixo \u00e9 vital. Um pre\u00e7o mais baixo pode resultar em problemas operacionais que afetam diretamente a qualidade do servi\u00e7o, refletindo na experi\u00eancia do consumidor final e na efici\u00eancia da cadeia de suprimentos.<\/p>\n<h2><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o do transporte rodovi\u00e1rio brasileiro demanda maior capital, controle e capacidade de gest\u00e3o. Contudo, a abund\u00e2ncia de caminh\u00f5es, a fragmenta\u00e7\u00e3o do mercado e uma percep\u00e7\u00e3o de baixa diferencia\u00e7\u00e3o impediram que o frete se ajustasse plenamente \u00e0 subida dos custos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, conforme a press\u00e3o sobre os pre\u00e7os aumenta, a rentabilidade tende a diminuir, impactando n\u00e3o apenas os transportadores, mas tamb\u00e9m a mobilidade geral, ao afetar diretamente a qualidade do servi\u00e7o dispon\u00edvel.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong><em>O transporte tende a ser commodity. A gest\u00e3o nunca ser\u00e1. \u00c9 ela que separa empresas que apenas movimentam cargas daquelas que constroem valor e permanecem relevantes ao longo dos ciclos.<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2><strong>Fonte<\/strong><\/h2>\n<p>www.abralog<\/p>\n<h6><em><strong>*CEO | Carsten Servi\u00e7os e Transportes<\/strong><\/em><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RENNAN CARSTEN* Como a expans\u00e3o da oferta de caminh\u00f5es, a press\u00e3o comercial e a escalada dos custos comprimiram a rentabilidade do transporte rodovi\u00e1rio brasileiro. S\u00cdNTESE Entre 2016 e 2026, caminh\u00f5es, pneus, diesel e alimenta\u00e7\u00e3o subiram muito acima da capacidade de recomposi\u00e7\u00e3o estrutural do frete. 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