Transporte ganha novos níveis de inteligência na infraestrutura.

A rodovia começa a enxergar: identifica um objeto na pista, percebe que um motorista está com sono e gera uma ordem de manutenção ao encontrar um buraco.

“Qual é o sonho nosso? Uma grande torre de controle onde você possa controlar a cadeia de suprimentos de ponta a ponta”, afirmou Pedro Moreira, presidente da Associação Brasileira de Logística, ao abrir o painel “A era da IA física e agêntica chega à infraestrutura” na Futurecom, um dos mais importantes eventos de tecnologia e telecomunicações da América Latina.

Moreira moderou o debate com Eduardo Camargo, CEO da Motiva, e Luiz Antonio Valentim, líder de desenvolvimento de negócios em inteligência artificial da Dell Technologies. O painel discutiu como conectar a inteligência da infraestrutura às necessidades de quem movimenta cargas, utilizando informações das rodovias para planejar viagens, coordenar chegadas a terminais e evitar que um gargalo comprometa a operação.

Com câmeras, sensores e inteligência artificial, a infraestrutura de transportes ganha capacidade de identificar ocorrências, antecipar riscos e acionar atendimento ou manutenção. Exemplos apresentados mostram que essa transformação já está em curso no Brasil. O próximo passo é compartilhar essa inteligência para que concessionárias, transportadores e terminais tomem decisões coordenadas, promovendo mais segurança e melhor aproveitamento dos recursos.

Valentim explicou que a IA física leva a inteligência dos modelos digitais à atuação de equipamentos, enquanto a IA agêntica permite que sistemas interpretem informações e executem tarefas. Essa combinação amplia a capacidade de resposta da infraestrutura: identificar riscos, cruzar dados e acionar processos operacionais. “Estamos agora em um período de sair das experimentações e resolver problemas práticos das indústrias”, afirmou. Para ele, a adoção em escala exige integração aos sistemas existentes, segurança, proteção de dados e previsibilidade de custos.

Da identificação à resposta

Na Motiva, essa evolução já aparece nas operações dos cerca de cinco mil quilômetros de rodovias administradas pela companhia. Camargo relatou que a cobertura por câmeras se aproxima de 90% da malha e que a implantação de conectividade prevê ao menos rede 4G. O centro de controle integrado em Jundiaí reúne informações para coordenar atendimentos e compartilhar experiências. Câmeras nas viaturas identificam problemas como buracos e sinalização danificada, gerando ordens de serviço para manutenção. “A conectividade é a base de tudo”, resumiu o executivo.

Pedro Moreira, presidente da Abralog, moderou o debate com Eduardo Camargo, CEO da Motiva, e Luiz Antonio Valentim, da Dell Technologies

A capacidade de antecipar riscos também alcança o comportamento de quem dirige. Segundo Camargo, câmeras reconhecem sonolência e distração, acionando alarmes e alertando o centro de controle, que pode orientar paradas e enviar outro motorista. Isso resultou em uma redução de mais de 60% na sinistralidade das operações. “O maior legado de um contrato de concessão de rodovia é a redução de acidentes e mortes”, destacou. Quanto às decisões sensíveis, especialmente no atendimento médico, ainda requerem supervisão humana.

Os gêmeos digitais permitem simular intervenções antes de executá-las. Camargo apresentou o desafio de criar representações digitais dos cinco mil quilômetros de rodovias da Motiva nos próximos três anos. Parte dos novos projetos já incorpora essa abordagem, que possibilita acompanhar ativos desde a concepção até a operação e manutenção, com investimentos projetados em torno de R$ 60 bilhões nos próximos seis ou sete anos. Valentim observou que as simulações ajudam a avaliar o melhor horário para obras e seus efeitos sobre o tráfego.

Inteligência compartilhada com a cadeia

Moreira enfatizou que conectar essas capacidades com outros participantes do transporte é essencial para combater a ociosidade, filas e viagens mal aproveitadas. Camargo exemplificou com a possibilidade de coordenar a chegada de caminhões aos portos: diante de um congestionamento, o motorista poderia ser orientado a aguardar em um ponto seguro. Ele esclareceu que essa aplicação ainda não está em operação, mas as informações e tecnologias necessárias já estão disponíveis. “Você otimiza a frota, dá velocidade e reduz a emissão de gases”, destacou. Valentim acrescentou que o compartilhamento de dados precisa gerar benefícios aos participantes, estimulando a colaboração entre concessionárias, transportadores e terminais.

A expansão dessa inteligência requer proteção contra ataques e continuidade dos serviços. Valentim destacou a necessidade de proteger os sistemas de IA contra tentativas de manipulação. Camargo relatou que a plataforma digital de pagamento de pedágios da Motiva bloqueia mais de cem tentativas de fraude diariamente. Os contratos de concessão brasileiros já incorporam recursos tecnológicos comparáveis aos de operações internacionais que ele visitou.

Para os participantes, a próxima etapa é ampliar o uso e a integração das ferramentas disponíveis, com objetivos definidos de segurança, qualidade do serviço e eficiência. Moreira vinculou essa evolução ao combate à ociosidade e à redução do custo logístico brasileiro. Valentim reforçou que a tecnologia deve servir aos propósitos das organizações e do país, afirmando que o horizonte de adoção está próximo: “Três anos não é futuro. Três anos é hoje”.

Fonte: motorista

Equipe Redação

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